História da Estação Ferroviária

A imagem pode conter: árvore e atividades ao ar livre

Em comemoração aos 125 anos de construção da Estação Ferroviária de Porciúncula, completados este ano, a Secretaria de Cultura preparou uma minuciosa pesquisa baseada nos documentos do acervo do Arquivo Histórico Municipal Adriana Amélia Pinto Coutinho.

O objetivo é resgatar a história, unificando as informações dos vários textos históricos existentes e disponibilizar aos porciunculenses, para facilitar o estudo e o conhecimento.

Segue texto unificado:

Estação Ferroviária de Porciúncula completa 125 anos
Patrimônio arquitetônico e testemunha da história

O prédio da antiga estação ferroviária, no centro de Porciúncula, talvez seja o ponto turístico mais fotografado da cidade em todos os tempos. Nada mais natural, uma vez que a história do município se formou em torno da estação, em função de transportar as pessoas e as riquezas do lugar.
Testemunha dos áureos tempos da agricultura do noroeste fluminense, com exuberantes culturas do café, do arroz e do algodão, a estação conta a história do povo porciunculense, passando pela tristeza do fim dos trens (substituídos pelos automóveis na década de 1970) e a posterior decadência agropecuária do interior.

Bons tempos aqueles em que os trilhos da estrada de ferro trouxeram a colonização e o progresso ao pequeno arraial de Santo Antônio do Carangola. Os vagões chegavam lotados de pessoas, cimento, cal, farinha de trigo, sal e partiam levando café, gado, frutas, carne seca, fedspato e algodão, dentre outros produtos locais.

Na verdade, tudo começou com o médico dr. Francisco Portela no ano de 1871. Homem de grande visão, ele percebeu que a região alcançaria enorme progresso caso uma linha férrea ligasse o Vale do Carangola a Campos. O trajeto planejado seria: Cachoeira (hoje Cardoso Moreira), São José do Avaí (Itaperuna), Nossa Senhora de Natividade e Santo Antônio do Carangola (Porciúncula), alcançando Santa Luzia do Carangola e um ramal que iria para São José do Patrocínio e São Paulo do Muriaé, no estado de Minas Gerais. Como na época o império não tinha condições financeiras de construir a estrada, resolveu ele mesmo, reunir investidores para viabilizar o projeto.

Em reunião realizada em 28 de julho de 1872, dr. Francisco Portela apresentou a empresários as riquezas do Vale do Carangola e o traçado previsto da ferrovia. O Comendador José Cardoso Moreira, rico industrial e político de grande prestígio em Campos, entusiasmou-se com o projeto, tornando-se acionista e maior propagandista do empreendimento. Passou a percorrer a região, vendendo ações da ferrovia.

Em 1876 começava a construção da Estrada de Ferro Campos-Carangola. Segundo o Major Porfírio Henriques, a pedra fundamental da estrada foi lançada em Campos no dia 14 de junho de 1875, com a presença de Dom Pedro II e do Barão de Holeben, engenheiro chefe das obras e outras personalidades eminentes.

Em função de interesses econômicos, a estrada demorou a chegar em Santo Antônio do Carangola (Porciúncula). Para beneficiar o comércio de parentes do Comendador José Cardoso Moreira, a obra ficou parada, por longo tempo, em Cachoeira (Cardoso Moreira) e depois em Porto Alegre (Itaperuna). A referida linha férrea chegou somente dez anos depois. As estações de Nossa Senhora de Natividade e Santo Antonio do Carangola (Porciúncula) foram abertas ao tráfego em 20 de junho de 1886. Em 26 de junho de 1887, Cardoso Moreira inaugurou em Santo Antonio do Carangola a estação da estrada de ferro do Carangola com grande festa, nas proximidades do atual terminal rodoviário.

Devido à demora, com outro traçado, vindo de São José de Além Paraíba rumo a Manhuaçu via Santo Antonio do Carangola, com destino a Santa Luzia do Carangola, outra companhia estava chegando à região: a estrada de Ferro Leopoldina.Vendo que as obras da concorrente avançavam, os idealizadores da Estrada de Ferro Carangola retomaram a construção em ritmo frenético, trabalhando quase 24 horas por dia. Mas, quando chegaram a Santo Antonio do Carangola, a Leopoldina já estava com seu leito preparado até Tombos do Carangola. José Cardoso Moreira tentou na justiça paralisar a obra, mas não conseguiu. O que se questionava era qual estrada passaria pelo leito previsto para a chegada até Santa Luzia do Carangola, pois ambas as estradas tinham o mesmo objetivo.

Foi feito então um acordo entre as linhas férreas: a estrada Campos-Carangola abriria mão de estender sua linha pela província mineira, fazendo seu ponto final em Santo Antonio do Carangola e a Leopoldina prosseguiria, sob a condição de não construir estação de parada no estado do Rio de Janeiro, ou seja, entre Antonio Prado de Minas e Tombos do Carangola.

O acordo prejudicou muito os moradores locais. Os trens da Leopoldina passavam pelo arraial de bandeira branca, o que aborreceu o povo. Após o acordo, a estação de madeira foi transformada em barracão. O primeiro agente da estação foi Cantidiano Rosa. Para ir ao Rio de Janeiro pela Estrada Carangola, o viajante tinha que pernoitar em Campos e atravessar o Rio Paraíba de balsa, para prosseguir viagem somente no dia seguinte. Pela linha da Leopoldina a viagem era feita em apenas um dia, mas o embarque era em Tombos ou Antônio Prado.

No ano de 1888, um poderoso sindicato inglês comprou a Leopoldina e em outubro do mesmo ano comprou também a Estrada de Ferro Carangola, unindo as duas empresas e formando The Leopoldina Railway Company Limited. Não se sabe por que motivo, o acordo firmado pelo Comendador Cardoso Moreira permaneceu e a estação que todos esperavam que então fosse construída em Porciúncula, não saiu.

A situação continuou a mesma, isto é, o trem não parava em Porciúncula. Quem desejasse viajar para o Rio de Janeiro, tinha que tomar o trem em Tombos ou Antônio Prado. O povo não aceitou esta situação e os ânimos foram se exaltando. A situação chegou a um ponto insustentável e, chefiados por Joaquim Custódio Fernandes Lannes, o Juca Bravo, neto de José de Lannes e Cantidiano Rosa, os porciunculenses arrancaram os trilhos da ferrovia “The Leopoldina Railways”, no trecho compreendido entre a atual rua Deputado Luiz Fernando Linhares e a ponte sobre o rio Carangola.

O primeiro presidente da província fluminense, eleito em 1892, dr. José Thomaz da Porciúncula enviou vinte praças chefiados pelo Tenente Dória para acalmar os ânimos. O militar resolveu a questão prometendo interceder junto ao governo para a construção de uma estação no arraial. Foi então construída pela E.F. Leopoldina uma parada, numa plataforma de madeira para embarque e desembarque de passageiros, o que não satisfez o povo, uma vez que a compra de passagens e embarque de mercadorias só poderia ser feito nas estações de Antonio Prado e Tombos.

Inconformada com a situação, seis meses depois, a população arrancou os trilhos mais uma vez e os jogou no Rio Carangola. A companhia Leopoldina mandou funcionários armados de foices, enxadas e porretes, desfilando nas ruas do arraial para demonstrar força e restabelecer a estrada a qualquer preço. Percebendo o delicado momento e as trágicas consequências que poderiam acontecer, o governador da Província, José Thomaz da Porciúncula, mandou um destacamento para evitar o derramamento de sangue e deu permissão governamental, através de um decreto, para a construção da sonhada estação de parada, que muito melhoraria a vida dos moradores.

Inaugurada em 1893, a estação construída em outro ponto, no centro do arraial, foi tão importante que o próprio nome “Porciúncula” saiu de uma inscrição em suas paredes. Os funcionários da E. F. Leopoldina deram o nome do presidente da província, José Thomaz da Porciúncula à nova estação, em agradecimento por sua intervenção na solução do conflito. Primeiro ele foi escrito numa tabuleta, depois colocado em letras grandes na fachada do prédio. Com o tempo, ninguém mais conhecia a localidade por outro nome.

A estrada de ferro modificaria profundamente a região. A ferrovia derrubaria as mata, modificaria a vida e deixaria a paisagem local completamente alterada. Organizaria as fazendas, representando uma efetiva economia na comercialização do café e trazia as novidades do litoral, com impressionante rapidez. Com os trens, chegava a influência urbana da capital. Ampliava-se o consumo e criavam-se modismos. Diariamente, aportavam na estação, novos habitantes.

Assim, a chegada de imigrantes começou a alavancar o desenvolvimento do arraial. Vieram médicos, advogados, lavradores e aventureiros em busca de fortuna. As construções ao redor da nova estação começaram logo a surgir e o crescimento do arraial prosseguia rápido. A nova estação passou a ser o centro de Santo Antonio do Carangola e o nome Porciúncula passou a ser evidenciado. Anos mais tarde, em 1926, o deputado Porfírio Henriques teve aprovado um projeto que mudava o nome para Santo Antônio da Porciúncula. Em 1938, o interventor federal, Capitão de Corveta Ernane do Amaral Peixoto, através de um decreto-lei denominou a localidade: Porciúncula. O novo município passou a se chamar somente Porciúncula, sendo emancipado em 21 de agosto de 1947.

A linha férrea pertenceu à empresa The Leopoldina Railway Company Limited até 1951, quando foi comprada pela Rede Ferroviária Federal S/A – RFFSA. Em 1973, quase um século depois, os trilhos da velha Carangola foram arrancados. E em 1976, os da Leopoldina. No dia 9 de setembro de 1976, pela última vez Porciúncula veria passar uma locomotiva. O movimento de passageiros e cargas deu lugar às despedidas. Em 22 de janeiro de 1979 foi suprimido o trecho entre Porciúncula e Cisneiros, fechando de vez a estação.

Os anos que se passaram. A estação passou a ser ponto de bares e sede de partido político. A população se movimentava para que ela fosse demolida para dar lugar a uma praça central. Quando o prefeito Antônio Jogaib assumiu a administração municipal em 1989, foi procurado pelo ex-funcionário da estrada de ferro, Olavo Pinto de Abreu, que não se conformava com a destruição do belo prédio tão representativo da história da cidade. Seu Olavo propôs ao prefeito a compra da estação ferroviária.

As negociações começaram e a prefeitura conseguiu concretizar a compra, em agosto de 1989, por 38 milhões de cruzeiros, divididos em três parcelas. Em 12/09/89, foi assinada a Lei n° 1.022/89, que desapropriou o imóvel para instalação de serviços públicos como biblioteca municipal, museu e outros interesses da municipalidade. O prédio passou por reformas sob a coordenação da arquiteta porciunculense Cristine Gonçalves de Souza.

No dia 11 de janeiro de 1991, o antigo prédio da estação, totalmente reformado, foi destinado à cultura e às artes e reinaugurado como Centro Cultural dr. Edésio Barbosa da Silva, abrigando a Biblioteca Eloy Vieira Lannes e o Espaço Cultural Conceição Fernandes Schuwart. Uma equipe de profissionais, liderada pela Coordenadora do Centro Cultural, a professora e jornalista Adriana Amélia Pinto Coutinho, foi empossada para resgatar, organizar, incentivar e dinamizar as manifestações culturais do município.

No mesmo ano, em 26/09/1991, a coordenadora Adriana Amélia, desenvolveu e implantou a Secretaria Municipal de Cultura, através da Lei n° 1.113/91, uma das primeiras secretarias municipais da região noroeste, exclusivamente voltada para o desenvolvimento cultural do município. Uma iniciativa revolucionária na região noroeste fluminense! Tornando-se a primeira Secretária Municipal de Cultura de Porciúncula.

Felizmente, a bela construção encontrou uma nova serventia, sendo transformada no Centro Cultural Dr. Edésio Barbosa da Silva, em 11 de janeiro de 1991. A velha estação abriga atualmente a Secretaria de Cultura, que movimenta a cultura em toda sua abrangência: biblioteca, pesquisa escolar, memória histórica, resgate da cultura popular, cinema, teatro, arte, artesanato e divulgação jornalística. Elo entre o presente e o passado, a Secretaria de Cultura proporciona aos porciunculenses e visitantes o resgate cultural e histórico, bem como as tecnologias mais modernas de informação.

No ano de 2018, o belo e histórico prédio da estação, resistindo ao tempo, continua servindo à cultura e à arte porciunculense e completa 125 anos de construção. Testemunha da fundação e colonização do município. Ponto turístico e equipamento cultural em atividade, há 26 anos cumprindo sua função cultural.

Redação e pesquisa histórica:
Ivana de Paula
Assessoria de Comunicação
SMC/PMP – 2018

Fontes de Consulta:
Nylson Macedo, As Ferrovias do Norte Fluminense, Parte VI – A estrada de Ferro do Carangola – Engenheiro da RFFSA (extraído da Folha da Manhã de 07/10/80 , Campos /RJ).
A origem do nome de “Porciúncula” e a história das estradas de ferro em nosso município ( Jornal Porciúncula Notícias de julho de 1992 – Ano 3, n° 12) escrito por José Antonio Abreu de Oliveira – Coordenador do Projeto Memória de Porciúncula
Subsídios para a história de Porciúncula, dr. Edésio Barbosa da Silva
Jornal Porciúncula 2000 – Edição n°25 – janeiro de 2000 (Estação Ferroviária – escrita por Rosimere Ferreira)
Jornal Estação Porciúncula – julho de 2011 (Patrimônio Arquitetônico, testemunha da história da sociedade – escrita por Ivana de Paula)
Acervo do Centro de Memória Adriana Amélia Pinto Coutinho – SMC
Acervo Gérzio Barreto Calzolari – SMC

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